Ela faz a diferença – PÉROLA NEGRA

Dra. Elaine

Dra. Elaine - Pérola Negra

“Lute pelos seus sonhos, porque eles não envelhecem.”
Se temos que aprender algo na vida, é acreditar em nós mesmos. E exemplos não nos faltam, para nos inspirar e nos motivar nas nossas lutas do dia-a-dia. Se, às vezes, reclamamos da vida, que seja apenas por um momento de desabafo. Não incorporemos o pessimismo, o sentimento de menos valia ou de pobre vítima. Nada pode servir como desculpa para não lutarmos pelos nossos sonhos. Nem mesmo a falta de oportunidade. A maior dificuldade está dentro nós mesmos. Nosso maior inimigo é a nossa falta de vontade.

Mas, nem todo mundo se deixa acorrentar pelo conformismo. É o caso da Dra. Elaine Pereira da Silva, que enfrentou muitas batalhas até conseguir se formar médica, realizando assim, o seu grande sonho.

Quando a “Pérola Negra” me adicionou no seu perfil do Facebook, deu-me boas-vindas calorosamente, apresentou-me sua história e despertou em mim a ideia de entrevistá-la para o blog. No seu breve contato percebi a simplicidade e a humildade características das almas que se destacam. E foi com esse tom atencioso que a Dra. Elaine aceitou o meu convite.

A entrevista se deu por e-mail porque moramos em cidades diferentes, porém, apensar de parecer, nosso contato não foi distante, nem tampouco fria. Ao contrário. Doutora Elaine foi muito gentil cedendo-me um pouco do seu tempo e até me presenteou com seu livro “Pérola Negra – História de um caminho”.

Segue, então, a entrevista. Tenho certeza que a história e a personalidade desta mulher negra e destemida irá emocionar e inspirar a todas nós.

Belezas de Kianda: Como foi a sua infância?

Dra. Elaine: Foi feliz, embora eu tenha vivido em meio à pobreza. Minha mãe, D. Ana (empregada doméstica), era uma mulher muito especial, por isto meu livro é dedicado à ela. Ela fazia de tudo, no seu tempo livre, para nos trazer alegrias, ensinava brincadeiras de quintal, contava histórias, “causos”, enfim, nos divertíamos bastante com o pouco que tínhamos. Tenho muita saudade desta época.

BK: Como surgiu sua vontade de ser médica?

Não sei exatamente, mas me lembro que, aos dez anos de idade, eu falei pro Dr. Luis, meu pediatra num convênio médico chamado Comepa, da firma onde meu pai trabalhava como pedreiro, a Filex. Ele sabia que eu era negra e muito pobre, mas ele me disse: “Você vai ser!”. Porque ele percebia que eu era bem inteligente, e que, talvez, conseguisse conquistar este sonho, mesmo sendo tão pobre.

O que não imaginávamos é que eu adoeceria gravemente, quando estivesse quase conquistando este sonho, o qual seria adiado por mais três anos.

BK: Na escola de medicina, certamente não haviam muitas mulheres negras e com a mesma origem social que você. Como você se sentia no meio dos outros alunos?

Não é que não havia muitas… (risos) não havia mais nenhuma além de mim! (risos) Em minha turma havia uma outra moça negra, mas ela veio de classe média – era outra história… Negra e pobre – havia apenas eu. Antes de adoecer eu tinha, desde a adolescência, um complexo de inferioridade muito grande. A sociedade me tratou como inferior, porque eu era negra e pobre, e eu acreditei que, de fato, era inferior… E também me sentia muito feia, o que fez de mim uma pessoa extremamente tímida, retraída, sempre me sentindo o “patinho feio”. Isto é péssimo. Falei a Jô Soares que só perdi este complexo de inferioridade mediante uma lesão cerebral aos 30 anos, no quinto ano de Medicina Unicamp. É muito triste saber que eu precisei enfrentar a morte pra descobrir que eu tinha valor. Falei pro Jô que o pior do racismo não é o negro ser tratado como inferior – o pior é ele sentir-se como tal. Lembro-me de que ele concordou. Minha entrevista com ele pode ser vista em meu site, em banda larga: www.doutoraelaine.com.

BK: No momento da sua doença, quem estava do seu lado?

Bem… você quer dizer quem continuou ao meu lado… porque, na verdade, quase o mundo inteiro me virou as costas. Todas as pessoas com as quais convivi por anos me abandonaram, exceto duas: o Dr. Fabrício Caneppele, que é como um irmão, e estudava comigo – e o Prof. Dr. Jamiro S. Wanderley, da Unicamp, que foi como um pai nessa hora. Só estes dois e mais algumas poucas pessoas que se achegaram ao longo dos anos.

BK: Você achou que estava tudo perdido?

Sim. Eu pensei em suicídio por três anos, pela quantidade de dores na carne e na alma… E hoje, dou palestras falando contra o suicídio. Muitas vezes, pensei que havia nadado muito, pra morrer na praia… Eu estava enganada. Deus queria que eu vencesse a lesão cerebral e o mundo inteiro atrás dela, para, um dia, levantar minha bandeira de vitória e contar como foi o caminho. Meu livro se chama “Pérola Negra – História de um Caminho” pois ele conta todas as grandes pedras que tinha no meio do caminho, e também conta que o AMOR de alguns poucos foi a minha salvação. O Amor de Deus e de meus poucos amigos! Também chama-se “Pérola Negra” em função do processo de formação da pérola. É uma ostra que foi agredida e, para se defender da agressão, ela produz a pérola. Ostras que não foram agredidas, invadidas, não produzem pérolas. E eu sou negra: pérola negra, a qual é muito rara.

BK: Quais as discriminações que você sofreu nesse período?

Inúmeras… Eu digo que a discriminação que enfrento até hoje foi como se falava da Anistia: ampla, geral e irrestrita… Desde professores da Unicamp, até faxineiras da Unicamp… Na verdade, até da minha família – conto tudo em meu livro.

BK: Existe alguma sequela da doença?

Como Drummond escreveu na sua poesia “Resíduo”: ‘De tudo fica um pouco’. Esta é uma das 122 epígrafes do meu livro. Eu ainda convivo com algumas poucas sequelas da doença, bem minimizadas, pois recebi um milagre de Deus. Restabeleci 80% da memória recente a qual ficou seriamente prejudicada por três longos anos, após a lesão em 93. Ainda tenho mais sono que as outras pessoas. E convivo com nove doenças psicossomáticas, as quais são sequelas da discriminação que até hoje enfrento em função do que vivi há 18 anos…

BK: Você considera a sua recuperação um milagre?

Com certeza. Ainda hoje, a Medicina não recupera cérebro: só estraga. A minha lesão cerebral foi negligência médica de um professor meu, da Unicamp, a quem estou processando. E acredito que, se eu não fosse negra e pobre, eu não teria sofrido esta negligência e visto meu mundo implodido. Se houver justiça, eu ganho a causa. Veremos.

BK: Como foi sua volta aos estudos?

Foram várias voltas… (risos). Sempre que pude, estudei, e quando piorei, parei novamente. Eu já havia perdido dois anos de faculdade pela lesão cerebral em 93. Voltei a estudar em 95. Quando faltavam oito meses pra me formar, em 96, sofri a segunda negligência médica. Passei por cadeira de rodas, muletas, tive os músculos e nervos lesados por um diabetes altíssimo (742 mg/dL – referência da época era 110 mg/dL). Parei de estudar novamente, perdendo assim o terceiro ano de faculdade. E quando já suportava a dor nas pernas e fui tentar voltar, sofri outra discriminação seriíssima, que me atrasou o diploma em mais quatro meses. A Comissão de Graduação barrou minha matrícula: disseram que eu não tinha “postura médica”. Postura médica é prepotência. Eu não tenho mesmo. Fiquei quatro meses como estagiária, provei que estava bem, e recuperei minha matrícula, quatro meses atrasada. Foram coisas assim que me encheram a alma de mágoa e o corpo de doenças psicossomáticas. Dizem que, se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia. Mas eu vou dar um, mesmo assim, a quem quiser: se possível, não guarde mágoa – ela só fará mal a você mesmo. Os que te magoaram continuarão suas vidas, impunemente. Se puder, não guarde mágoa em seu coração!

BK: Depois de formada, qual foi a sua busca?

A busca foi exercer a Medicina como eu acho correta. A melhor possível, para qualquer pessoa, de qualquer nível sócio-econômico-cultural. Infelizmente para nós, brasileiros, a saúde pública está configurada para um mau atendimento: a consulta rápida e superficial. Em função de querer atender minuciosamente, para evitar erros como os que sofri, eu fui discriminada até o ponto de abandonar um cargo onde eu era médica concursada na prefeitura de Campinas, e ir embora da cidade. Rodei o país, enfrentei discriminação fora de Campinas também, e voltei pra cá quinze meses depois.

BK: Como é o trabalho voluntário que você realiza em Vila Brandina?

Há um atendimento beneficente, ligado à Casa de Jesus. Fiquei lá por cerca de dez anos e, o quanto pude, atendi Clínica Geral de Adultos e Crianças. Gosto mais das crianças – elas são mais honestas.

BK: Todos nós sabemos que a saúde pública no Brasil é precária, praticamente falida. Como você vê as políticas públicas voltadas para a saúde da mulher?

Eu acho que elas existem mas, infelizmente, não atingem a maioria da população. Ainda ontem, falando com uma amiga que mora em Santos – SP, ela me disse que no Centro de Saúde ao qual pertence, só há médico e dentista às quartas-feiras… Isto em Santos! Imagine nos lugares mais afastados!  Lembro-me de uma paciente que atendi no PSF (Plano de Saúde da Família) em Paranaíba – MS, onde trabalhei em 2004, por três meses. Ela chorava à minha frente, literalmente, porque achava que estava com câncer de mama. Já tinha pedido ao médico Ginecologista da cidade para examiná-la e, segundo ela, ele não lhe encostou a mão e disse-lhe que ela não tinha nada. Eu a examinei e, realmente, encontrei uma tumoração palpável, relativamente grande em uma das mamas, a qual poderia mesmo ser maligna. O caminho correto seria eu encaminhá-la ao Ginecologista da cidade. Mas, acreditando em seu relato, encaminhei-a, com urgência, direto ao Centro Oncológico de referência, que ficava em outra cidade. Penso que meus colegas médicos, se conseguissem atender a cada paciente como se fosse um ente querido seu, teriam um sucesso muito maior. Mas também devo dizer que não é só culpa dos médicos o mau atendimento. Todo o sistema público de saúde carece de recursos generalizados. É preciso que os governos cumpram o que prometem nas campanhas eleitorais, dedicando muito mais verbas à saúde do que existe hoje. Claro que o povo também precisa aprender a cobrar os seus representantes eleitos. É preciso mais profissionais de saúde, mais postos de saúde, postos e hospitais com equipamentos atualizados e em condições de uso, salários muito acima do que se pratica hoje, exames feitos em muito menor tempo do que é agora. É preciso que se dê condições de existir qualidade técnica na rede pública e, assim, poder cobrar que ela exista. Se o dinheiro que sai pelo ralo da corrupção viesse pra saúde e pra educação, o país estaria salvo.

Livro Pérola Negra

BK: Quando e por que resolveu escrever um livro?

Quando sofri a segunda negligência médica – a que me colocou na cadeira de rodas, meu amado professor Jamiro indicou-me contar minha história em um livro. Eu já havia começado e abandonado o projeto bem no início, pouco antes disto. Ele encorajou-me a voltar a escrever, porque achou que seria uma história com potencial de animar as pessoas a lutarem pelos seus sonhos. A ideia é dizer ao mundo que somos maiores do que nos supomos, e que sonhos não envelhecem!

BK: Você esperava que sua história tivesse tanta repercussão?

Na verdade, eu gostaria que tivesse muito mais repercussão do que teve…(risos) Eu trago comigo um sonho de transformar meu livro em um filme longa-metragem. Está, como tudo, nas mãos de Deus.

BK: Você ainda realiza palestras? Como são e onde costuma realizá-las?

Sempre que sou chamada, eu levo minha história e divulgo meu livro. Minha palestra não se aplica a nenhum público específico. Ela pode ser útil a qualquer pessoa mortal, que possa ter um problema minimamente grande, hoje ou amanhã, e que poderá, talvez, utilizar-se do meu livro e da minha palestra, de alguma forma. Meu celular é (19) 9718-5095. O e-mail é doutoraelaine@doutoraelaine.com. Pelo meu site, também podem me escrever.

BK: Onde você trabalha atualmente, além do serviço voluntário?

Na verdade, atualmente não estou trabalhando em lugar algum. Em função das minhas doenças psicossomáticas, precisei me afastar de todos os trabalhos há alguns meses. Mas, como a vida continua, voltei a estudar. Neste ano, retomei meu curso de pós-graduação em Perícia Médica e Medicina do Trabalho.

BK: Toda essa luta que você enfrentou deixou alguma sequela na tua alma?

(Risos) acho que isto já foi respondido…

BK: Que mensagem você gostaria de deixar para a leitora do BK?

1) A frase da música “Clube da Esquina número dois” de Lô Borges, Márcio Borges e Milton Nascimento:

“Porque se chamavam homens, também se chamavam sonhos e sonhos não envelhecem.”

2) “O tempo é escasso – mãos à obra! Primeiro, é preciso transformar a vida, para cantá-la em seguida.” (Maiakóvski)

E, finalmente, a mensagem que já vem impressa na página das dedicatórias do meu livro, de minha autoria:

“Plante, adube e regue a árvore da sua Felicidade. Ela dá flores lindas!”

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