Coisa de preta

NO BALANÇO DO TOIN-OIN-OIN

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Funkeiro carioca e seu toin-oin-oin.

Funkeiro carioca e seu toin-oin-oin.

Na década de 80 era moda entre os meninos que frequentavam bailes funk no Rio um cabelo tipo molinha, que chamavam de toin-oin-oin (ou toin-hnoin-nhoin, sei lá). E foi com esse termo onomatopeico que minhas queridas primas me apelidaram quando me viram pela primeira vez com meu cabelo encaracolado ao natural, logo após uma intensa seção de risadas, claro. Apesar do deboche, não me senti ofendida, pelo contrário, sabia que naquele momento estava fazendo uma pequena revolução trazendo para o mundo “normal” a estranheza do natural. Meus toin-oin-oins é que estavam ofendendo. Afinal, que ousadia era aquela de mostrar as raízes, de fazer aparecer o que o henê escondia tão bem.

Era a primeira vez que eu via o meu cabelo como ele é de verdade, no maior estilo “puxa estica, solta enrola”, principalmente quando eu não penteava. Confesso, dava uma certa preguiça desembaraçar todo dia. Ao acordar era certo ouvir piadinhas do meu irmão que dizia “ai, que susto!”. Que raiva! Mas eu não dava confiança.

Na escola, até que me aceitaram muito bem. As pessoas me davam “força” dizendo “é isso aí, tem que se assumir”. Eu era a única aluna negra na minha turma e as colegas brancas me diziam que eu estava linda. Na boa, até hoje não sei se era sincero.

Mas meu maior desafio mesmo foi ao entrar no salão de beleza onde minha mãe e meu tio trabalhavam como manicure e cabeleireiro. Todos me olharam sem entender por que eu tinha aquele cabelo. Por que ele não era alisado? Por que ele não estava escovado? Por que eu não cuidava dele? Por que? Se eu tinha cabeleireiros na família, por que meu cabelo não tinha balanço e era esvoaçante como um cabelo tratado deve ser?

Não demorou muito e uma colega do meu tio veio logo me oferecer uma nova e moderna técnica de alisamento que prometia deixar meu cabelo sedoso e com balanço. Eu ia ficar na moda. Bom, acabaram me convencendo quando me disseram que ficaria mais fácil de pentear, que nem precisaria passar o pente depois de acordar porque ele já estaria todo no lugar, bem bonitinho. Meus olhos brilharam e me rendi às facilidades prometidas.

VENDI MINHA ALMA AO DEMÔNIO!!!

A pasta (como era chamada) cheirava a enxofre e ardia como fogo o meu couro cabeludo. Mesmo com meus apelos a cabeleireira dizia “aguenta mais um pouquinho, o produto tem que agir pra poder funcionar”. Que loucura, meu Deus! O que as mulheres não fazem pra ficarem bonitas? Eu estava sofrendo, meus olhos cheios d’água, estava ardendo pra c@*&%$! Mas eu estava ali, aguentando firme! E o resultado de todo esse sofrimento? Meu couro cabeludo queimado, ardendo até a alma e muitos, muitos fios quebrados que saíam na minha mão quando eu penteava. Um tufo enorme de cabelo na parte de trás da minha cabeça caiu totalmente e eu tinha que disfarçar colocando o que restou por cima.

Queimadura por alisamento. Essa imagem é o que mais se assemelha com o que ficou meu couro cabeludo.

VALEU A PENA?

Meu cabelo ficou muito liso. Parecia que o “boi lambeu”. Me achei feia, sinceramente. Fora o ressecamento que nenhuma massagem com toca térmica (hoje chamamos de hidratação) dava jeito. Que trauma! E não teve jeito, tive que cortar bem curtinho e deixá-lo crescer novamente. Lógico que não repeti mais o procedimento. Não sou tão masoquista assim. Aliás, as mulheres são meio masoquistas mesmo, porque não se importam de se submeterem a seções de tortura em nome de um ideal de beleza. Loucura!

As antigas pastas alisantes (não sei se ainda existem) tinham aquele cheiro forte porque continham amônia na sua formulação e faziam um verdadeiro inferno no nosso cabelo. O produto não só abaixou o meu toin-oin-oin como também derrubou a minha chance de carregar na cabeça a minha identidade com toda a sua beleza natural e, com certeza, muito mais leve, saudável e forte.

Essa experiência foi o suficiente para eu aprender a lição? Por incrível que pareça, NÃO. Outras técnicas menos agressivas foram surgindo e eu fui experimentando até encontrar o produto que melhor atendia aos meus desejos de facilidade e embelezamento, equivocados com certeza.

Por causa do conceito de que cabelo crespo é ruim, criou-se a cultura do alisamento que impediu a mulher negra de enxergar a beleza de suas características naturais e, consequentemente, de aprender a lidar com seu próprio cabelo como ele é de verdade.

E neste caso, fazer o caminho de volta não é andar para trás e sim evoluir. Porque aceitar sua natureza e enxergar a beleza que há nela é o que há de mais sábio, moderno e revolucionário.

Acompanhe esta saga lendo os artigos anteriores:
Meu doce crespinho
No tempo do henê

Até a próxima!

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A volta de quem nunca foi

Miguel e Davi, minhas riquezas.

Miguel e Davi, minhas riquezas.

Após quase 1 ano sem publicar, aqui estou eu de volta a este espaço que é dedicado à você, mulher negra, amiga e irmã. Estou de volta para continuar a partilhar conteúdos sobre o nosso universo, mas meu coração sempre permaneceu aqui. Meu afastamento teve uma razão especial: fui mãe pela segunda vez e tive que dedicar meu tempo aos meus pretinhos. Pronto! Agora minha vida está mais preenchida, mais iluminada e mais enlouquecida (pois que não é nada fácil cuidar de dois meninos pequenos), sobrando-me algumas horas da madrugada para me dedicar a este meu outro filho querido.

Pretendo trazer-lhes novidades bem legais como novas parcerias, novos musos, informações, promoções, música boa, além de trocar com vocês um bom papo sobre cabelo, maquiagem, moda e muito, muito mais.

O espaço é de vocês e estão todas (e todOs também) convidadas a marcarem presença aqui comentando, participando e compartilhando. Convidem as amigas, espalhem por aí e vamos que vamos em frente!

A mulher brasileira

Mulher brasileira é guerreira
Acorda cedo pra ir trabalhar
Quando volta pra casa
não vai descansar
E ainda arranja tempo para amar
E ainda arranja tempo pra se ajeitar
Cuida do almoço, cuida do filho, cuida do cabelo
Não vai se atrasar
mas se olha no espelho
Passa baton, passa a mão na chave
e não esquece a passagem da condução
E assim ela ganha seu dia
e mata o leão
Sustenta a família e ganha seu pão
Não tem medo da vida
Inventa um destino e se realiza
ou não
Voz com firmeza
Mão com leveza
A mulher brasileira faz o país
Não sai na capa mas é o modelo
de luta pra sobreviver, pra viver,
pra ser feliz.

O dia da mulher se aproxima. É o momento para refletir sobre o papel da mulher negra na nossa sociedade e nos muitos embates que tem de enfrentar na vida. Vamos homenagear nossas mães, irmãs, filhas, amigas, companheiras… Quem não conhece uma mulher (ou várias, ou muitas) a quem se inspirar?

Coisa de preta

NO TEMPO DO HENÊ!

Assim costumo dizer quando quero me referir a alguma coisa bem antiga. Mas, por incrível que pareça, o henê ainda existe e resiste aos modismos, novidades em técnicas de alisamento, alongamentos, etc.  Ainda tem mulheres que não querem saber de arriscar e continuam com seu bom e velho henê.

Depois da fase de chapinha e pente quente, meu crespinho foi apresentado a este, que era a marca registrada das mulheres pretas na década de 1980. A partir dali, virou religião na minha casa. Todo mês era sagrado o ritual de passar henê no cabelo para ele ficar liso, brilhante, preto e sedoso. Afinal de contas, preta que era preta, tinha que passar henê. Quanto mais liso, mais preto e mais brilhante, mais a nega era caprichosa – questão de status. Usar henê era cultural, um estilo de vida. E não podia dar um pio enquanto minha mãe passava com pente fino e esticava, esticava, esticava… Ai meu pescocinho!

Publiquei uma foto no Facebook, perguntando quem já tinha usado henê e tive uma grande surpresa com as incríveis coincidências nos depoimentos. Voltei no tempo e comecei lembrar-me de detalhes que já havia esquecido. Como, por exemplo, sempre se passava aos sábados de manhã. Colocava-se um saco plástico pra proteger. No calor isso era um sofrimento. Para tirar tinha que lavar com sabão de côco e esfregar bem, porque a testa e as orelhas ficavam manchadas. Depois passávamos babosa ou fazíamos “massagem” com creme de lama negra. E, por fim, os bobs. Esses últimos eram fundamentais, pois era o que ia modelar os cabelos já devidamente alisados. Minha mãe encapava-os com folhas de revista ou jornal e enrolava no meu cabelo enquanto eu assistia o “Cassino do Chacrinha”. Esticava beeeeeemmmm as mechas e prendia com grampos ou clips. Aí era só amarrar um lenço e, pronto!

Nos depoimentos no Facebook percebi que esse ritual também era traumático pra muitas mulheres. A cabeça sempre coçava, o henê escorria pelo rosto, o cheiro não era muito agradável. Eu detestava! Principalmente ter que dormir de bobs. Esse processo todo me deixava com dor de cabeça. Nossa, como sofri!

Mas, aos quatorze anos, dei meu grito de liberdade e passei a me recusar a usar henê. Nunca mais usei mesmo. Minha mãe não podia fazer nada, pois eu já estava bem crescida pra decidir o que fazer com meu cabelo. No início, usei meu cabelo natural. Cortei bem curto e deixei crescer pra depois tomar o caminho tortuoso das pastas alisantes. Mas isso é uma outra história.

É só uma paradinha!

Por motivos de força maior e em virtude das festividades de fim de ano, o BK está entrando num pequeno recesso. Mas pequenino mesmo! Eu prometo! rs

Estamos no ar fazem apenas três meses. Parece mais tempo né? Confesso que algumas promessas não foram cumpridas, mas não foi por falta de vontade e, sim, de disponibilidade de tempo. Então, após aprender algumas lições, não farei promessas para 2012. Ao invés disso, farei planos.

Promessas não cumpridas

Uma das seções mais desejadas para este ano era a “Estilosa da semana”, que só teve duas participações (e fizeram bastante sucesso, por sinal). Não é fácil sair por aí clicando as negas estilosas que vejo pelas ruas (e são muitas), pois existem duas barreiras a serem superadas: minha timidez e a delas. rs! Mas continuará em nossos planos essa “brincadeira” legal que tem como objetivo reverenciar a beleza das negras que tem seu estilo próprio e inspirar a todas nós.

Outra promessa não cumprida (é melhor na listar todas pra não ficar feio, rs) é o banco de dados de salões e profissionais que trabalham com cabelo afro. Já temos alguns nomes cadastrados, mas não houve possibilidade, ainda, de montar essa página. Continuará em nossos planos para 2012.

Tarefas cumpridas

Não conseguimos produzir tudo que pretendíamos, mas muita coisa foi feita.

Atendendo a calorosos pedidos, tivemos aqui a presença dos musos Boris Kodjoe e Idris Elba, que fizeram nosso coração bater mais forte. Lindos!

Também realizamos sorteios, participamos de blogagens coletivas, aprendemos e refletimos sobre questões referentes à nossa cultura e afrodescendência.

Não posso deixar de destacar uma das seções que mais fizeram sucesso, pela beleza e pelo talento das colaboradoras que sensibilizaram e emocionaram as leitoras e os leitores que passaram por aqui. AFRODESIA continuará, com certeza.

Realizações e conquistas

Antes mesmo de irmos ao ar, já tínhamos conquistado alguns fãs. Até agora são 30 seguidores do blog, 412 fãs no Facebook e quase 7.500 visitas. Acho muito bom, mas podemos melhorar. Convide suas amigas e amigos a nos visitarem! Espalhe por aí que existe na internet um espaço só para as mulheres negras, que valoriza e exalta a nossa raça!

Logo na estreia tivemos uma entrevista emocionante com a Dra. Elaine, grande exemplo de luta e superação. Ela foi muito amiga do BK e ainda nos presenteou com seu precioso livro “Pérola Negra”. Não podemos deixar de agradecê-la e desejá-la ainda mais sucessos e vitórias em sua vida. Um grande abraço doutora!

E pra fechar o ano em grande estilo, três maravilhosas parcerias chegaram para juntar forças com o BK: Balaco Roupas Afrobrasileiras, Colares D’Odara e EmpregueAfro. Todas com grande desejo de presentear as leitoras com brindes especiais. Considero essas parcerias uma grande conquista porque todas compartilham da mesma filosofia e objetivo.

*

Então, depois desse balanço sobre nossos primeiros meses de vida, quero desejar boas festas para todos e um 2012 cheio de grandes realizações. Não se preocupe se as promessas forem do tipo “missão impossível”, o importante é o desejo de realizar e a esperança de conquistar seus objetivos.

Por aqui o trabalho continuará. Até já!

♥ ♥ ♥

[ o corredor está cheio de sonhos difíceis ]

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Revista Espaço Acadêmico, ISSN 1519-6186 – ANO XVII - Mensal - Conselho Editorial: Ana Patrícia Pires Nalesso, Ângelo Priori, Antonio Ozaí da Silva, Carlos Serra, Celuy-Roberta Hundzinski, Eliel Machado, Elisa Zwick, Eva Paulino Bueno, Henrique Rattner (in memoriam), Josimar Priori, Luiz Alberto Vianna Moniz Bandeira (in memoriam), Paulo Cunha, Raymundo de Lima, Renato Nunes Bittencourt, Roberto Barbato Jr., Rogério Cunha de Castro, Rosângela Praxedes e Walter Praxedes. Editor: Antonio Ozaí da Silva

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