Eu, Black Power!

Mônica Francisco

Meu nome é Monica Francisco e sou professora de Língua Portuguesa e Literatura. Minha relação com o meu cabelo começou quando eu era criança e minha mãe cuidava de mim e de minha irmã somente com produtos naturais. Ela fazia trancinhas lindas e eu era uma criança negra comum como todas as outras que veem a mãe usar química no cabelo e que brincava de colocar toalha na cabeça para imitar as artistas da televisão.

Quando fiquei mocinha, começamos a “tratar de nosso cabelo” uma vez que queria ser como todas as mocinhas de cabelo alisado, usando henê e pente quente. Geralmente com minha falta de habilidade para o uso (sou desastrada), queimava partes da testa, as pontas da orelha e a nuca para “tornar melhores” o que todos achavam que é cabelo ruim. E nesse processo de alisa, puxa e enrola de bobs e troca de hêne, pois o produto, depois de um tempo, não correspondia mais ao desejo, foi estabelecendo um luta constante de embate com aquilo que o cabelo em minha natureza negra é o que nunca poderia ser.

De vez em quando iámos à casa da minha avó  famosa por fazer chapinha e marcel. E era uma espera, várias pessoas na fila, depois o cuidado de não molhar a cabeça, pentear sem desmanchar os cachos e, em casa, enrolar bobs para manter o penteado. E assim fui crescendo, virando mocinha. Quando  a grana era menos  curta minha mãe levava eu e minha irmã na D. Dora e lá ela fazia marcel nos nossos cabelos. Conforme ia crescendo, tornei- me moça e resolvi tirar o hêne e popularizaram-se no mercado outros produtos químicos mais potentes, mais fortes que  o cheiro do hêne que manchava nossas unhas e mãos. Passei a usar alisamentos vendidos em farmácia que duravam mais tempo no cabelo e eram mais rápidos na manipulação.

Depois passei uma fase usando permanente, comecei a trabalhar e decidi que faria alisamento com uma profissional. Tive uma experiência traumatica com um produto que, depois de um mês, me fez perder todos os fios na frente e no meio da cabeça. Cortei o cabelo bem curto e quando comecei a curtir, superar  a vergonha de ser careca. Meu cabelo cresceu e passei a fazer permanente afro.

Em paralelo a essas crises capilares, comecei a frequentar eventos afros na cidade e ficava encantada de ver tantas mulheres negras com cabelo natural, coisa que não é tão comum aqui onde eu moro. Decidi que  trançaria os cabelos e fiquei um bom tempo trançada.
E comecei a me questionar sobre o porquê de eu alisar o cabelo. Qual seria a imposição da sociedade que me impedia de ser livre, de me vestir como eu quisesse, ser o que eu queria?

Comecei a elaborar maneiras de fugir disso e passei a espaçar os tempos de química, ficava quase três meses sem fazer, mas depois fazia novamente. Nesse momento eu ouvia críticas da minha família que não aceitava que, sendo uma professora, tivesse cabelo natural, pois não estaria arrumada para o trabalho. Entre outras palavras duras que ouvia dentro de casa.

Enquanto em casa minha mãe achava um absurdo eu perder todo o dinheiro que tinha gasto no cabelo, no trabalho as crianças curtiram muito. Essas palavras me motivaram a deixar o meu cabelo natural mesmo e hoje, passados quatro anos, não me arrependo.

Amo o meu cabelo, a textura, a cor… Gosto da minha textura de algodão e descobri, nesse meio tempo, que o  amor é de dentro para fora, não o contrário. E que, mesmo que meu cabelo não fique do comprimento que eu goataria – pois pensei que ele  fosse crescer e ficar como o das meninas que eu via -, eu sou capaz de aceitá-lo como ele é. E isso foi muito doloroso. Mas hoje sou feliz com meu black power.

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17 Responses to Eu, Black Power!

  1. Luh Souza says:

    Você em nós.
    “Que o trauma do cabelo espichado não seja um dado que se separe
    ou exclua. Que todos, como são, encontre seu lugar nesta luta.”
    Milton Santos

  2. Belíssimo texto! Me vejo muito na sua história. Parabéns e seja bem-vinda!

  3. Carol Moreira says:

    Lindo texto,Mônica

    Me identifiquei com suas palavras,acredito que sua voz é a de muitas negras em vários cantos do nosso país.”Nadar contra a corrente”é díficil ,mas é necessário,pois a luta tem que continuar.
    Bjos Carol.

  4. Alessandra says:

    Adorei o depoimento! Passei por algumas dessas fases e hoje estou em processo de transição. Estou adorando não usar químicas, e acho que falta um espaço maior (assim como para os cabelos com química), para os cabelos naturais. Sabemos que ele precisa de cuidados específicos, e geralmente quem, como eu, está se reencontrando, encontra certa dificuldade em o que usar, o q fazer, o q não fazer, entre outras coisas!
    Beijos!

    • Belezas de Kianda says:

      Alessandra, aguarde q traremos várias dicas para cuidar do crespo natural. Bjs e obrigada pela visita!

    • Monica says:

      É muito complicado mesmo deixar a química, até pela imposição do modelo de beleza de nossa sociedade,mas quando ultrapassamos as fronteiras disso nos libertamos.

      • Maicon says:

        Que as mulheres negras em sua beleza natural consiga enxergar-se lindas e belas! Que não precisa “quimicar’ seu cabelo para se enquadrar no padrão eurocêntrico imposto!

    • Julia says:

      Alessandra, eu também estou neste processo, mas há 15 dias cortei o restante da química que ainda havia em me cabelo, na hora foi um pouquinho “diferente” me ver com o cabelo curto, mas agora já me acostumei, e antes de cortar eu vi muitos vídeos no you tube das meninas que como nós também abandonaram as químicas: a rosajorosa, Érika Soaresentre muitas outras… Estou há nove meses sem passar química e acredito que foi a melhor decisõa que eu já tomei em toda a minha vida! Beijo para todos e continuem na luta. Julia

  5. Monica says:

    Oh amiga, vou entrevistar você.

  6. BOA NOITE MONICA FRANCISCO,

    A LITERATURA GANHA COM AS SUAS PALAVRAS,
    E O ENTERNECIMENTO DOS CACHOS VOLUMOSOS E DUROS DOS NEGROS,
    FARÃO aos cachos… PERIPÉCIAS MÚLTIPLAS, E NESSAS AULAS DE GRAMÁTICA PORTUGUESA, OS PENTES SALTARÃO EM SUAS VERDADES… E MONICA, OS BIGODIZ… FALARÃO POR SI SÓ!!!
    E VIVAM OS NEGROS QUE SE DEIXAM AMAR COM OS CABELOS DUROS!!! MAS, MUITOS DE NÓS OS TIVEMOS EM SONHOS MOLINHOS E PUROS!!! kkkkkkkk
    Bjos de Joana
    (e não é loucura da joaninha)

  7. Monica, super me identifico com sua historia, engraçado que quando eu era criança fazia a mesma coisa kkkk colocava toalha na cabeça brincando ter cabelos compridos, coisa que nunca tive por conta de tanta quimica que já passei nos cabelos, é triste lembrar de todos os fios que já perdi nesta vida mas a culpa é toda nossa que nao aceita a natureza que temos e enquanto continuar brigando com ela quem perde sou eu mesma, mas até se acostuma é tenso… né verdade.

    Bjossss

    Jaque

  8. zeh cosme says:

    …Legal vcs são D+ .. cada depoimento maravilhoso, é de da orgulho !

  9. Celma Felipe says:

    Monica, seu comentário sincero e transparente retrata a vivência de todas nós mulheres negras principalmente na infância. Sua franqueza nos acorda! Forte abraço!

  10. monica32 says:

    Oh meninas e Maicon. Obrigada, ou como falamos entre os nossos gratidão.
    bjos

  11. Adriana says:

    Cara Mônica,

    Me deparei com esse blog (que eu ainda não conhecia) e li seu depoimento. Obrigada por tanta sinceridade! Estou fazendo uma pesquisa sobre cabelo e tenho entrevistado várias mulheres – tanto negras como brancas – que alisam/relaxam ou já alisaram/relaxaram seus cabelos. Todas as mulheres negras que ouvi até agora relataram ter passado as mesmas coisas que você passou na sua infância. É chocante e triste o quanto a sociedade, seja através da mídia ou não, impõe um ideal de beleza que a maioria das mulheres brasileiras não tem como alcançar… mas que se flagela tanto tentando, principalmente as negras!

    Parabéns pelo seu “despertar”! 😉

    Abraços,
    Adriana

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