Coisa de preta

NO TEMPO DO HENÊ!

Assim costumo dizer quando quero me referir a alguma coisa bem antiga. Mas, por incrível que pareça, o henê ainda existe e resiste aos modismos, novidades em técnicas de alisamento, alongamentos, etc.  Ainda tem mulheres que não querem saber de arriscar e continuam com seu bom e velho henê.

Depois da fase de chapinha e pente quente, meu crespinho foi apresentado a este, que era a marca registrada das mulheres pretas na década de 1980. A partir dali, virou religião na minha casa. Todo mês era sagrado o ritual de passar henê no cabelo para ele ficar liso, brilhante, preto e sedoso. Afinal de contas, preta que era preta, tinha que passar henê. Quanto mais liso, mais preto e mais brilhante, mais a nega era caprichosa – questão de status. Usar henê era cultural, um estilo de vida. E não podia dar um pio enquanto minha mãe passava com pente fino e esticava, esticava, esticava… Ai meu pescocinho!

Publiquei uma foto no Facebook, perguntando quem já tinha usado henê e tive uma grande surpresa com as incríveis coincidências nos depoimentos. Voltei no tempo e comecei lembrar-me de detalhes que já havia esquecido. Como, por exemplo, sempre se passava aos sábados de manhã. Colocava-se um saco plástico pra proteger. No calor isso era um sofrimento. Para tirar tinha que lavar com sabão de côco e esfregar bem, porque a testa e as orelhas ficavam manchadas. Depois passávamos babosa ou fazíamos “massagem” com creme de lama negra. E, por fim, os bobs. Esses últimos eram fundamentais, pois era o que ia modelar os cabelos já devidamente alisados. Minha mãe encapava-os com folhas de revista ou jornal e enrolava no meu cabelo enquanto eu assistia o “Cassino do Chacrinha”. Esticava beeeeeemmmm as mechas e prendia com grampos ou clips. Aí era só amarrar um lenço e, pronto!

Nos depoimentos no Facebook percebi que esse ritual também era traumático pra muitas mulheres. A cabeça sempre coçava, o henê escorria pelo rosto, o cheiro não era muito agradável. Eu detestava! Principalmente ter que dormir de bobs. Esse processo todo me deixava com dor de cabeça. Nossa, como sofri!

Mas, aos quatorze anos, dei meu grito de liberdade e passei a me recusar a usar henê. Nunca mais usei mesmo. Minha mãe não podia fazer nada, pois eu já estava bem crescida pra decidir o que fazer com meu cabelo. No início, usei meu cabelo natural. Cortei bem curto e deixei crescer pra depois tomar o caminho tortuoso das pastas alisantes. Mas isso é uma outra história.

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Sobre Valéria Guedes
Uma mulher comum, sensível e, às vezes, inspirada. Escrevo o que sinto sem pretender outra coisa que não seja me expressar.

6 Responses to Coisa de preta

  1. kandimba says:

    Uma verdade verdadeira e muito bem escrita.

  2. Elizabeth Therezinha Passos Sezinando says:

    Olá,….

    Também passei por esse ritual durante várias décadas da minha vida .
    E o pior tudo por causa de uma professora que eu tive.
    É uma história longa que posso contar para que estiver interessado.

  3. Pingback: Coisa de preta | Belezas de Kianda

  4. nossa! me vi nesta história passei por tudo isso.

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