Coisa de preta

NEGRA BELEZA!

Os pássaros voam porque têm asas. Mas sempre existem as gaiolas.

Vamos supor que as asas sejam a nossa natureza, como nascemos. As gaiolas são os padrões a qual nos acostumamos e aprendemos a amar.

Rejeitamos os espelhos, onde nos vemos como somos, para nos espelharmos em imagens e valores que nos negam e renegam a nossa história.

Abaixar o cabelo, por exemplo, é abaixar a crista. E é ainda mais que isso. Abaixar o cabelo é retirar da cabeça a nobreza da nossa raça. É renegar a corôa preciosa que nosso antepassado nos deixou como herança, e trocá-la por correntes e grades a nós oferecidas como jóias.

É um cárcere de portas abertas, ao contrário das senzalas. Pois estar fora dessas gaiolas é uma questão de escolha. Elas são feitas de fumaça esbranquiçada e podemos dissipá-las com um sopro de renovação de valores.

A necessidade de “se aceitar” deve sobrepor ao desejo de “aceitação”, ou permaneceremos encarceirados. Não tenho vergonha de dizer, pois é a mais pura verdade: quando eu era pequena puseram um pregador de roupas no meu nariz para ele ficar fino e arrebitado. Alguém mais passou por isso? Não sei se era um hábito comum, como o de passar pente quente no cabelo pra ele ficar lisinho. Depois de tanto tempo, foi a vez do meu filho ser vítima da mesma “chacota”, quando pessoas disseram “ele é lindo e fofo, mas o nariz…”. Acreditem, me recomendaram colocar um pregador de roupas no nariz dele. Claro que retruquei dizendo que jamais faria isso porque o nariz dele é perfeito como o meu.

Cirurgia plástica no nariz.

Uma das características da pessoa negra que é mais criticada, ou até ridicularizada com piadinhas e apelidos, é o nariz mais largo. É muito fácil ceder à tentação de “corrigir” recorrendo a cirurgias. E existem outros meios de se descaracterizar (inclusive o uso de cremes clareadores) com a desculpa de ficar mais belo.

Eu não sou contra essas pessoas. Acho que elas apenas não sabem do seu valor.

A indústria de cosméticos não se interessa em desenvolver produtos para o público negro. Pois a beleza que é exaltada, desejada, imitada não é a nossa. Portanto, na teoria, isso não daria lucro. Também, na concepção deles, uma campanha publicitária divulgando seus produtos não tem êxito se os modelos são negros. A não ser que se pareçam com brancos. E quem possui poder aquisitivo para consumir esses produtos? Quem consome? Boa parte da economia que geramos vai parar no bolso deles. E o que recebemos em troca? DISCRIMINAÇÃO!

Bom, eu sei que já existem produtos voltados para o público negro, mas ainda são poucos. Ou, simplesmente, são produtos que incentivam a nossa descaracterização, como cremes alisantes e clareadores.

Nossa cor, nossas feições, nosso cabelo, nariz, boca… são perfeitos! O defeito está é na cabeça de quem acha feio. Não podemos deixar que o preconceito afete nossa autoestima. Pelo contrário. Passe a olhar-se no espelho com outros olhos e verás a beleza de ser uma mulher negra.

Somos negras. Afrodescendentes. Somo belas. Somos diferentes e iguais. E temos muitas razões para nos orgulharmos de quem somos e brigarmos por respeito e pelo fim da discriminação que, muitas vezes, começa dentro de nós.

Liberte-se e seja uma negra feliz!

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Sobre Valéria Guedes
Uma mulher comum, sensível e, às vezes, inspirada. Escrevo o que sinto sem pretender outra coisa que não seja me expressar.

12 Responses to Coisa de preta

  1. Miriam Castro says:

    Perfeito… simples e sedutor…
    Há que se ter olhos para ver…
    Há que se ter percepção suficiente para encarar de frente… sentir mesmo com todos os sentidos…
    Há que se ter VIDA para viver na mais plenitude do SER MULHER NEGRA….

    Obrigada!

    • Beatriz Magna Aguiar says:

      Reflexão necessária e extremamente linda! Parabéns !

      Quero deixar aqui um pedacinho de um poema para nós.

      “Mulher da Pele Negra
      Longe do samba
      Distante do tamborim
      Longe da vaidade
      Distante do bisturi

      Mulher da Pele Negra
      É a mais linda de fato
      A mais bela obra prima
      Um verdadeiro retrato
      De uma plástica divina.”

      (Luiz de Jesus)

  2. Atividades Denuncio says:

    O irmã, fico feliz de ler um texto assim. bjo

  3. Ju Bernal says:

    Gostei muito do texto! Parabéns e continue incentivando as pessoas a valorizarem sua beleza própria. bju

  4. Luanda Santos says:

    Esses diálogos na net são muito legais e importantes… é incrível me deparar com a realidade de que mesmo tendo passado mais de 500 anos do fim da escravidão negra, ainda haja esse estigmatismo no Brasil… a beleza é única, não importa tamanho de nariz, largura de boca, ou seja lá o que for…
    A sociedade precisa acordar… é preciso perceber que todos nós temos a nossa beleza e que traços são característicos de cada pessoa… é isso que difere um do outro… o que tem padrão é objeto…
    Se compramos pq não aparecemos nas propagandas? Eles dizem que nossa cor não vende, mas parece que a propaganda quem faz são eles… eles que são capazes de “imputar” idéias no imaginário da sociedade… então pq eles não começam fazendo a parte deles?? Ao invés de colocar negros de traços finos e com a pele tão clara (não estou os discriminando), pq não colocam o negão ou a negona???
    Se cada um começar a fazer sua parte… se cada um fizer um mínimo esforço para que isso mude… as coisas mudarão… pq realmente a discriminação, a não aceitação está dentro da cabeça dos indivíduos!!! E indivíduos podem mudar seus pensamentos, indivíduos podem determinar o que serão e determinar o mundo em que vivem, já que somos o que pensamos!!!

  5. kandimba says:

    Bonito!

  6. Zeh Cosme says:

    show

  7. Diego says:

    E a discriminação que sofrem as mulheres e homens que não são nem negros nem brancos?A pressão para se assumirem como pertencentes a uma ou outra etnia, o preconceito que sofrem de ambos os lados por não serem suficientemente pretos nem brancos. Na mídia eles podem ser o paradigma da beleza negra para alguns que não conseguem aceitar a diversidade da beleza humana mas fora dela são chamados de racistas, acusados de negar a própria “raça” e não podem simplesmente assumir que são mestiços como 99% dos brasileiros, com a diferença de que a sua aparência mostra isso aos olhos do mundo de forma explícita.

    • Caro Diego, devemos sempre combater qualquer tipo de discriminação e, principalmente, não ficarmos buscado nos encaixar em padrões de beleza impostos pela sociedade ou pela mídia, nos aceitando como somos, nossa cor, nosso cabelo, nossas feições… A maioria dos brasileiros vive a ilusão de que somos uma democracia racial, com a miscigenação como marca registrada do nosso povo. Mas a realidade é que, quanto mais escura a cor da pele, maior a discriminação. Quanto mais crespo é o cabelo, maior é a não-aceitação, impondo-se a necessidade de recorrer a alisamentos ou o uso de implantes. Para mudar essa realidade, primeiro deve partir de nós mesmos a mudança, revendo conceitos e buscando sempre a autoaceitação, a valorização de nossas características e, o mais imporante de tudo, o respeito.

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