Coisa de preta

Meu doce crespinho

Pente quente, eis o terror da minha infância. Tive até pesadelo quando menina. E a falecida Dna. Clarice, um anjo cheio de doçura, com suas mãos negras tão carinhosas… Nem seu olhar terno era capaz de acalmar-me naquela cadeira. Quando vinha o pente quente, ai como eu tremia! Me arrepiava a espinha.

Foto: Bob Croslin.

Minha avó querida, Dna. Áurea, negra de São Luiz do Maranhão, levava-me de tempos em tempos à casa da Dna. Clarice. Alisar o meu crespinho era preciso. E quando crescia mais um pouquinho, e a raiz das minhas raízes se atreviam a revelar-se, lá ia Valerinha para a tortura da chapinha. Dna. Clarice dizia-me: “calma, minha filha! Nem encostei o ferro ainda!” Que tortura, meu Deus!

Aquele salão era pra mim o inferno, onde exalava de um fogão velho o cheiro de cabelo queimado. Eu era tão pequena, mas esse pente quente marcou-me dolorosamente. Nunca esqueci.

Depois do alisamento fatal, finalmente era possível fazer maria-chiquinha, amarrar com elásticos coloridos, ou rabos-de-cavalo bem esticados – eu virava japonesa.

Sofrer não é preciso!

Tudo pronto! Fim do crespinho! Cabelo arrumadinho!

Lá em casa minha mãe deixava tudo perfeito: a casa bem arrumada, o chão encerado, as panelas ariadas e o meu cabelo esticadinho.

Não se admitia uniforme sujo ou amassado. Eu ia para a escola com tudo perfeitinho e o cabelo arrumadinho.

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Sobre Valéria Guedes
Uma mulher comum, sensível e, às vezes, inspirada. Escrevo o que sinto sem pretender outra coisa que não seja me expressar.

17 Responses to Coisa de preta

  1. Sonia Rodrigues da Penha says:

    Oi Valéria, legal este resgate que você faz, quando criança, também tinha pavor de ficar com o “cabelo arrumadinho”!

    • Belezas de Kianda says:

      Pois é, Sonia! para uma criança era um sofrimento. Mas o pior é achar q ter o cabelo crespo é ruim. cresci sem saber como lidar com ele e achando q tinha q modificá-lo para ficar bonita. e isso ainda é o q está na cabeça da maioria das negras do Brasil e outros países.

  2. Susy Sousa says:

    GOSTEI DO SEU JEITO DE SE EXPRESSAR, PARABÉNS.
    AH EU TINHA PAVOR DESSE PENTE,AINDA BEM QUE NUNCA CHEGOU PERTO DO MEU CRESPIN,NA MINHA INFÂNCIA EU SEMPRE USEI TRANCINHAS E ADORAVA.MAS AGORA GOSTO MESMO É DO MEU CRESPIN NATURAL E LINDO, BJOSS

  3. Soraya Souza says:

    Eu me lembro uma vez que eu estava de saco cheio de ver minha mãe alisar meu cabelo e cortei as minhas tranças (enormes). Meu pai se injuriou e raspou na 1. Eu quis morrer!!!
    Hoje eu tenho amor aos meus cabelos crespos. Amo!

  4. Carla Lauryn says:

    Me lembro que minha mãe fazia isto no meu cabelo ainda me recordo do cheiro de cabelo frito em óleo mineral.

    • Belezas de Kianda says:

      é isso mesmo Carla! usava-se um óleo ou uma pomada pra cabelo. só ajudava a fritar heheheh!

  5. Alexandra says:

    Seiva de Mutamba e Juá, era o tal de um óleo verde que ajudava a fritar o nosso cabelinho tão sofrido. Pelo menos nos anos 80, aqui no RJ, esse óleo era o campeão…Tinha também um cremezinho branco, lembro-me que tinha um cheiro melhor que esse óleo verde e deixava até o cabelo bem macio.
    Em compensação, a gente nem podia se mexer muito pra manter o cabelo arrumado…Quando íamos a festas, então? Todo mundo correndo, e a gente sentadinho com medo de transpirar e estragar toda a produção… É por isso que hoje nem quero saber da “festa do estica e puxa”…

    • Belezas de Kianda says:

      Isso mesmo Alexandra! eu me lembro desse óleo e do creme branco, q era um potinho pequeno e redondinho. Festas e dias de chuva eram um terror para os cabelos alisados. aff!

  6. Simone Guedes says:

    Eu usei tranças até os 7 ou 8 anos, não lembro bem. Nessa fase minhas tranças pararam de crescer enquanto as da minha irmã eram muito longos e lindas. Hoje acredito que por ciúmes do cabelão da minha irmã, pedi pra minha mãe pra cortar, aquela mulher maravilhosa sempre deixou eu fazer o que queria com minha juba, então fui no cabelereiro e cortei mesmo. Até hoje uso cabelo curto ou médio, alisado sim gente e sem traumas.

  7. Luciana Santos says:

    Oi Valeria, adorei , passei muito por isto tb, esta história me vez reviver os momentos de tortura, porem para finalizar minha mãe sempre dizia:” Dói mas vc vai ficar mais linda” !!!
    Adorei….

    • Belezas de Kianda says:

      Oi Luciana! Mas essa era tb a desculpa que davam. Era o conceito q se tinha e q ainda se tem de q a mulher pra estar bonita tem q ter o cabelo liso.

      bj querida! Nos acompanhe sempre!

  8. Essa foto chega a dar medo… Lembro das queimaduras todas na cabeça…rs

  9. luciana says:

    Por isso que hoje em dias vejo tantas brasileiras meio carecas de tanto esticar o cabelo. Ainda bem que ninguém passou isso no meu cabelo. Crespos e cacheados devem ser livres!

  10. Pingback: Coisa de preta | Belezas de Kianda

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