Coisa de preta

Menina também gosta de pipa!

Tenho 36 anos e moro em minha casa há 30. Cheguei neste bairro, nesta rua, neste quintal aos 6 anos de idade. Tudo era diferente, afinal era 1981. Em 30 anos, nada poderia continuar o mesmo. E da minha infância para cá muita coisa mudou. Minha casa mudou, meu quintal encolheu, outras crianças chegaram para brincar na mesma calçada onde eu desenhava amarelinhas e onde minha turminha se reunia numa roda pra decidir com quem estava o pique. Mudaram também algumas brincadeiras, os brinquedos, a paisagem. Alguns vizinhos mudaram-se e outros partiram. Meu bairro fica no subúrbio do Rio de Janeiro, onde, como em qualquer bairro suburbano, os vizinhos são os parentes mais próximos e todo mundo conhece todo mundo. É quase uma cidade provinciana.

Muita coisa mudou, mas também muita coisa continua a mesma. Quando criança eu convivia com muitas diferenças: umas crianças podiam ter os brinquedos caros e outras não. Umas estudavam em escolas particulares e outras não. Os pais de algumas tinham carro e de outras não. Era assim. E hoje eu observo que isso não mudou muito.

Algumas brincadeiras continuam as mesmas. Ainda se brinca de boneca, quando as meninas imitam suas mães. Também vejo meninas brincando, acreditem, de panelinha. Como eu adorava! As meninas ainda fingem ser donas-de-casa ou princesas. Ainda é assim.

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Também era legal, naquela época, experimentar as brincadeiras dos meninos. Eu adorava jogar bola de gude no tapete da sala com meu irmão. Eu e minha amiga Daniele adorávamos soltar pipa. Bom, isso era um problema, porque os meninos nunca deixavam a gente se juntar a eles. Mas, a gente se virava. Eu mesma fazia as nossas pipas e catávamos os restos de linha que os meninos deixavam no chão para tentar botar nossa invenção no ar. Quase nunca funcionava. A gente não sabia a ciência de empinar uma pipa. Como era difícil. A gente subia na laje daqui de casa, mas não adiantava. Ela não subia. Eu era boa de fazer pipas, mas não era boa de empiná-las. Também o meu pai só ensinou ao meu irmão, que era expert. Ainda é um hábito de homens e meninos soltar pipa. Ainda não é brincadeira de menina.

Hoje é Dia das Crianças. E, como antigamente, a corrida às lojas de brinquedo é praticamente obrigatória. Não se pode deixar uma criança nessa época sem ganhar um brinquedo. Mas criança não entende quando os pais não podem lhes dar o brinquedo legal que ela viu na TV. É mais que um objeto de desejo. É um sonho a realizar. Quando menina eu sonhava com o “Meu Bebê”. A maioria das minhas colegas tinha essa boneca. Eu nunca ganhei. Ter uma Barbie, então, era o máximo! Nenhuma dessas bonecas refletiam as minhas características de cor, cabelo, olhos. Elas não se pareciam comigo. Todas eram loirinhas de olhos azuis. Mas eram elas que habitavam o meu imaginário.

Hoje existe uma infinidade de bonecas negras, mas nos anos 80 eu não tinha muitas opções. Aliás, eu me lembro de uma boneca “preta” de plástico. Ela era preta mesmo e não negra. Não era bonita e nenhuma menina tinha, por tanto, eu também não queria. Meu sonho era ter uma Barbie com todos aqueles acessórios cor-de-rosa. Essa é uma realidade que continua. As meninas pretas ainda querem barbies loiras de roupinha cor-de-rosa.

Bonecas Blythe

Tenho pensado em todas essas coisas porque este ano fui mãe a primeira vez. Penso em como e quais valores passar para o meu filho. Como ensiná-lo e não impor aquilo que acredito ser o justo e o correto? Como mostrar para ele que as brincadeiras do passado são muito divertidas e que é importante manter algumas tradições? Me preocupo se ele será um homem que saberá respeitar as mulheres e ter consciência da sua afrodescendência. Me preocupa se ele será um consumidor responsável, se ele será honesto e generoso. E se será um bom pai.

Educar é uma missão que exige mais exemplo que palavras. Mais amor que disciplina. É preciso, às vezes, refazer o caminho e reconstruir certos conceitos e paradigmas absorvidos ao longo da vida e que hoje é contestável. Toda mãe deseja que seu filho seja feliz, mas também temos que desejar que ele seja um transformador e um colaborador para um mundo mais justo, habitável e feliz.

Fotos: tiradas de diversas fontes da internet.

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Sobre Valéria Guedes
Uma mulher comum, sensível e, às vezes, inspirada. Escrevo o que sinto sem pretender outra coisa que não seja me expressar.

5 Responses to Coisa de preta

  1. sara.alicemichel@hotmail.com says:

    Justamente é sua falta de inteçoes e simplicidade faz com que o que escreva… Seja tudo que gostariamos de escrever ou falar ..Adorei sua infançia .. Esse dia das crianças naõ teria taõ
    boa definiçaõ quanto a sua…

  2. Cris Reis says:

    Agora você tem, finalmente, o seu “meu bebê”: aquele que chegou para fazer a diferença no seu mundo e no Mundo.
    Privilégio nosso percebê-la tão consciente, generosa e plena.
    Parabéns, Miguel pela mãe mais que especial!
    Super beijo, Valéria.

    • Belezas de Kianda says:

      Brigada querida!!!! Com certeza o meu bebê é meu melhor presente nesta vida!!! bjs em vc, no Gui e na sua filha!

  3. Pingback: Blogagem Coletiva: Infância, Consumo e SexismoBlogueiras Feministas | Blogueiras Feministas

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