Outros papos – SOBRE A INVISIBILIDADE DA MULHER NEGRA

"Mulheres sob todas as luzes"Lendo o post inaugurau do Blogueiras Negras, escrito por Larissa Santiago, sobre a invisibilidade da mulher negra, lembrei-me de um assunto que há muito venho refletindo.

De fato a mulher negra tornou-se invisivél na história. Numa das minhas visitas à livraria da Travessa no Centro do Rio de Janeiro, caçando novidades, encontrei o livro “Mulheres sob todas as luzes” de Patrícia Rocha, Ed. Leitura. A publicação é muito bonita, o livro é grande, colorido, capa dura cor de rosa. Eu, como qualquer designer gráfico, logo me interessei em folhear e admirar o belo projeto. Mas o meu interesse também era o de procurar mulheres negras dentre as muitas citadas na forma de linha do tempo. Porém fui surpreendida (nem tanto) quando não vi nenhuma representate da África ou diásporas. Logo anotei o nome da autora e da editora e fui procurar na internet um meio de entrar em contato, pois eu queria muito saber se a mulher negra não é relevante na história. Será que ela ficou sob a sombra dessas mulheres iluminadas? Nunca obtive uma resposta.

“Nenhuma revolução foi tão significativa para a humanidade como a Revolução Feminina e para entender melhor este universo, Patricia Souza, autora do “Mulheres Sob todas as Luzes”, traz um estudo completo sobre as questões tecnológicas, culturais, sociais, históricas, éticas e filosóficas. O perfil feminino sobre todos os olhares. O livro é uma pesquisa relativa à presença das mulheres desde os tempos mais remotos até a atualidade. Não se trata de uma história sobre a mulher, mas uma análise sobre a presença dela na sociedade, sua participação na família e, principalmente, sua contribuição como ser humano e como ser pensante.”

Resumo da editora. E eu pergunto: ONDE ESTÁ A MULHER NEGRA NA HISTÓRIA?

Nosso estilo – BLACK POWER

O poder do BlackMuitas aderem pela cultura, outras por atitude política, mas também tem aquelas que usam simplesmente porque é estiloso e ponto.

Contrariando as regras e no contraponto das manias de alisamento, relaxamento e alongamento, muitas mulheres pretas estão descobrindo a beleza, o charme e a feminilidade do Black Power, com ou sem acessório, com ou sem creme de pentear. A textura e o volume do cabelo crespo estão conquistando aquelas que já estão cansadas da alteração química dos fios.

COMO SURGIU

Mulheres Black PowerCom punhos fechados, o negro se impôs a uma sociedade que se recusava a aceitá-lo como um igual. Gritou, marchou e deixou seu cabelo duro crescer, criando o Movimento Black Power, na década de 1960, nos EUA. Logo depois o visual tornou-se moda pelo mundo e está cada vez mais atual, não apenas como um símbolo, mas também como um estilo ou um caminho de autoaceitação para as mulheres negras. Apesar de não ser uma novidade, usar B.P. ainda é considerado uma ousadia, um visual “alternativo”, inadequado em situações que exigem uma aparência mais “formal”. Mas, como assim?! Black Power é elegância pura! E é preciso “cabeça” pra sustentar tanta imponência!

Clique para ampliar.

O BK convidou algumas irmãs para contarem suas experiências, revelarem seus truques pra manterem o black bonito e dar algumas dicas pra quem estiver pensando em adotar o estilo. Vem comigo e sente só o poder dessas pretas!

O QUE SIGNIFICA O B.P. (Black Power) PARA VC?Marianne Rocha

Marianne Rocha – Amor. Quando passei a respeitar a maneira como nasci e a vê-la como potente, percebi que não poderia negar o que sou.

Thayná Trindade – Significa assumir minhas raízes, expor minha verdadeira beleza sem amarras que essa sociedade impõe. Significa liberdade.

Carla Fernandes – Pra mim significa ter atitude, pois não é qualquer pessoa hoje em dia que consegue ter um Black Power por causa do preconceito. Muitas vezes somos vítimas até mesmo de zombação. Tem muita gente com mente fechada que não tem coragem de mostrar sua verdadeira raiz.

Tainá Almeida – Black Power sou eu. Não é simplesmente me libertar de padrões, é a forma que eu me encontrei e sou feliz. É cuidado, dedicação, conhecimento de identidade acima de tudo.

Viviane Âmbár – Embora hoje em dia o nome esteja associado apenas aos cabelos afros, muita gente não entende que nossos cabelos fazem parte de algo que vai além da estética. Ele é a representação da aceitação da mulher negra, que não cede à pressão imposta pela sociedade que ensina que cabelo bonito é apenas o liso, ignorando com isso que com exceção dos indianos, a maioria dos negros não tem cabelos lisos. Ignorando nossa beleza natural. Eu acho que Black Power é um protesto contra tudo que quer agredir nossa estética. Somos lindos como somos. E não precisamos nos submeter a tantos tratamentos destrutivos para nos assemelhar com pessoas que não nos aceitam.

Élida Aquino – Entendo que o cabelo crespo, black ou não, é extensão do corpo. Meu cabelo é parte de mim, me completa e é a assinatura da minha resistência. Não gosto de tratá-lo como um símbolo, mas ele complementa minhas atitudes de resistência.

HÁ QTO TEMPO VC USA?

Marianne Rocha – Desde os 16, há 4 anos.

Thayná Trindade – O dia 31/12/2008 foi meu big chop.

Carla Fernandes – Faz uns 4 ou 5 anos.

Tainá Almeida – Ele está totalmente natural há 11 meses.

Viviane Âmbár – Quando criança meus pais mantinham meu cabelo natural, e foi assim até os 10 anos quando o bulling começou a afetar minha autoestima. Com 11 comecei a fazer uso de relaxantes e, mesmo assim, ainda tinha o volume. Foi assim até os 18. Aí decidi começar do zero de novo, e entre moicanos, tranças, careca, acho que a vida toda eu usei cabelo afro. Eu sempre mudo uma coisa ou outra, mas sempre volto pro natural. Rs!

Élida Aquino – Desde de 2009, mas estou natural há 1 ano e meio.

Thayná TrindadeÉ DIFÍCIL MANTER?

Marianne Rocha – Nunca achei. Primeiro porque algumas pessoas acham que black bem cuidado é dentro de um padrão estético não libertador e tão limitador quanto um cabelo alisado. Aquela coisa alinhada, sem vida, “dominada”, sempre querendo cachinhos.

Thayná Trindade – Não.

Carla Fernandes – Não, adoro meu cabelo super prático. Claro, tem que ter o produto certo para o seu cabelo não ficar ressecado.

Tainá Almeida – Não. Na verdade, depois que eu conheci meu fio de verdade, o natural, foi muito mais fácil manusear.

Viviane Âmbár – Bom, quando fica muito grande, dá um pouco de trabalho, porém isso é bobagem. Todo cabelo precisa de cuidados, precisa de hidratação, precisa de corte às vezes. E sinceramente, quando usei moicano a la Rihanna, achava muito mais trabalhoso, alisar todo mês, acordar 1 hora mais cedo todo dia pra fazer chapinha, temer o menor sinal de umidade, não lavar o cabelo sempre, a chapinha quebrando todo o cabelo na frente… Sinceramente, meu crespinho dá muito menos trabalho. Se tiver com bom formato é só dar um “tapinha” e tá lindo, se num der, temos turbantes, boinas, faixas, toda uma gama de recursos que não agridem nossos fios como as químicas. Acho muito mais fácil de manter.

Élida Aquino – A dificuldade varia de pessoa para pessoa, mas posso dizer que me sinto muito confortável com meu cabelo. Mais até do que quando era alisada. Minha rotina é bem normal (invisto em cosméticos e cuidados na hidratação, principalmente, como qualquer outra mulher), mas a dificuldade não aumentou com o cabelo crespo assumido, não. Arrisco dizer que se tornou até mais fácil, já que gosto mais de cuidar hoje em dia e os momentos que tenho para tratar do meu cabelo são sempre muito bons.

COMO COSTUMA CUIDAR (lavar, pentear, produtos, etc.)?

Marianne Rocha – Eu gosto dele solto… não uso shampoos, condicionadores ou cremes especiais; compro o que tem na farmácia. Rs! Confesso que existem tratamentos ótimos, mas não os uso sempre.

Thayná Trindade – Ultilizo a linha Trésemme ou Pantene. Lavo e hidrato normalmente. Passo um leave in às vezes.

Carla Fernandes – Eu lavo ele um dia sim e outro não com shampoo e condicionador Seda Cachos Definidos. Desembaraço com escova de dentes largos. Uso sempre um creme de pentear da mesma linha do shampoo, faço hidratação e, como tenho loiro no meu cabelo, uma vez por semana uso Shampoo Desamarelador Violeta para deixar minhas luzes num tom mais acinzentado.

Tainá Almeida – Aprendi o que ele gosta, como ele fica mais bonito. Assim fica fácil. Já conheço os truques.

Viviane Âmbár – Eu lavo de dois em dois dias. É um cabelo frágil e acho que lavar todo dia quebra demais. Se estiver muito ressecado, toda semana hidrato, se não, de 15 em 15 dias tá ótimo. Quanto aos produtos, não tenho uma dica milagrosa. Sempre temos que trocar porque depois de um tempo não faz o mesmo efeito. Eu amo a marca Capicilin, G Gelatina, redutor de volume que dá uma super definição aos cachos. Estou usando Tresemmé e também tenho notado resultados excelentes. Agora uma dica que faz diferença: sempre pentear com pente de dentes largos, e com os cabelos molhados, isso evita quebra. E sempre usar um bom reparador e cremes para pentear próprios pra cabelos crespos.

Élida Aquino – Tenho tentado inserir o cronograma capilar no meu cotidiano (hidratar, nutrir e reparar). A cada semana faço um tratamento com produtos específicos para cada coisa, mas o procedimento é igual. Sou adepta do low poo (redução do uso de shampoo) e lavo meu cabelo em semanas intercaladas. Nesses dias faço umectação com azeite de oliva, lavo, faço a hidratação, condiciono e penteio. Nos outros dias evito molhar com frequência. Nos dias em que não molho e que desejo definir mais os fios ou fazer um penteado que precise dele úmido, uso um leite desembaraçante. Evito água quente e uso muitos óleos, já que no meu tipo de fio as pontas ressecam mais facilmente. Só.

“LOW POO”? PRA MIM É NOVIDADE!Carla Fernandes

Élida Aquino – Então, existem duas técnicas bastante usadas entre “as naturais”. É mais uma das influências que as norte americanas trouxeram. A primeira é o no poo, que retira o shampoo da vida, e depois o low poo, que reduz e substitui por shampoos sem sulfato.

No cabelo crespo a ação de shampoos pode ser horrível, por conta dos detergentes, sulfato e etc. Ele resseca fácil por natureza e um shampoo assim pode piorar tudo. Por isso o cuidado.

As adeptas de low poo geralmente só lavam a raiz, sem chegar com o shampoo até a extensão.

E investir na hidratação máxima é uma regra.

VC USA B. P. EM QUALQUER SITUAÇÃO?

Marianne Rocha – Sim.

Thayná Trindade – Meu cabelo é minha identidade.

Carla Fernandes – Uso Black Power todos os dias, sempre. Em festas e eventos deixo ele com mais volume, faço penteados diferentes. No trabalho uso ele mais preso e com menos volume.

Tainá Almeida – O tempo todo. Além dele me ornamentar, ele é meu posicionamento político. Não tenho como mascarar.

Viviane Âmbár – Sim. Trabalho, eventos sociais, sempre mesmo. Meu último evento social foi um casamento onde cantei. Trancei todo de um lado e deixei um puff do outro, e fui. Hoje em dia a aceitação do cabelo está maior. Ainda existem lugares onde as pessoas olham torto, mas não me importo. Meu cabelo faz parte do que eu sou. A única coisa que faço se a situação for muito formal, é usa-lo preso no alto. Mas sempre black. Rs!

Élida Aquino – Sim, não abro mão. Posso usar penteados, tranças, acessórios diferentes, mas meu cabelo está sempre lá.

JÁ SOFREU PRECONCEITO POR USAR B.P.?

Marianne Rocha – Uma vez eu estava na Lapa e uma menina simplesmente resolveu colocar a mão no meu cabelo sem pedir qualquer autorização. Já fui seguida por crianças pra ser vítima de piada. Homens, por exemplo, já acham que mulheres negras são espécie de putas e quando nos veem de black, isso se intensifica. Já disseram que meu cabelo estava cheio de piolho. Já me abordaram em bailes de maneira agressiva e quando eu retruquei me xingaram de piranha pra baixo e usaram meu cabelo como exemplo disso, como “olha só o cabelo dela, coisa ruim, assim como ela é toda ruim!”. Pessoas já deixaram de sentar ao meu lado no ônibus por causa do meu cabelo. A lista é grande. Rs!

Thayná Trindade – Sim, mas sou muito segura de mim. Não me abalo.

Tainá AlmeidaCarla Fernandes – Já sofri sim! Uma vez consegui um emprego e disseram que, se eu quisesse trabalhar lá, teria que tirar o black. Não fiquei por isso. Passou um tempo e me chamaram novamente para trabalhar lá e dessa vez por causa do black, pois queriam atendentes com um visual de estilo diferente. Puro marketing.

Tainá Almeida – Do tipo silencioso. Nunca fui proibida de nada, nunca me perguntaram quando eu alisaria, nada do tipo. São os olhares nas ruas que são mais carregados de preconceito.

Viviane Âmbár – Já. Por eu ser mestiça e ter pele clara, as pessoas pensam que não, mas acontece. A mais recente foi entrar numa loja de artigos de luxo, e nenhuma funcionária sequer me atender, eu ando sempre muito bem vestida, não haviam motivos. Aí entraram duas moças loiras na loja, e de pronto 3 funcionárias foram atender, uma delas até me pediu pra dar licença, ignorando completamente que eu era uma cliente em potencial. Já me disseram que acham cabelo crespo sujo, e por ser clara, eu ouço mais bobagens ainda, porque as pessoas se sentem a vontade em ser racistas na minha frente achando que não vão me incomodar, como dizer que meu pai me teve com uma mãe branca pra limpar a raça.

Élida Aquino – Muitas vezes e em todo tipo de ambiente. A maior parte das pessoas não está pronta para ver um cabelo “ruim” se assumindo e se achando lindo, circulando por aí. Ridicularizam, agem com estranheza ou demonstram alguma pena. Mas o que mudou com o tempo foi o meu pensamento e não o mundo ao redor. Eu amadureci e hoje entendo que meu cabelo pode andar livre como eu.

MAS, E OS MENINOS? ELES GOSTAM DESSE ESTILO OU NÃO CURTEM MUITO?

Marianne Rocha – Depende do ambiente. Na favela, em baile, era rejeitada por quase todos. E isso não é culpa deles, não é culpa nossa. O racismo no Brasil tem suas origens históricas. Os brancos racistas nos ensinaram a nos odiar; odiar nosso cabelo, nosso nariz, nossa boca, nossas formas, nossa cultura.

Thayná Trindade – Eu não chamo B.P. de ”estilo”. É minha forma natural. Se homens/meninos curtem? Devem curtir. O meio por onde ando é o meio da cultura negra e por identificação as pessoas gostam. Não ligo muito pra quem não gosta ou acha estranho. Meu marido ama e briga se corto um fio… Rs! Ele usa dreads.

Carla Fernandes – Alguns curtem demais até e outros não.

Tainá Almeida – O black chama muito mais atenção. E graças a Deus existem os meninos que entendem que por traz do black existe muita história. Digo que o black só deixa chegar perto os tipos de meninos mais interessantes.

Viviane Âmbár – Nesse ponto eu sou muito desapegada de opiniões. Se algum dia alguém dissesse que não ficaria comigo por causa do cabelo eu saberia que não vale a pena. Eu tinha problemas com isso no começo da adolescência, queria agradar todo mundo, mas logo descobri que não é assim que se consegue atenção. Depois nunca mais tive problemas, pelo contrário. Quando fiquei careca, por exemplo, muitos amigos homens ficaram contrariados. Rs!

Élida Aquino – Nos lugares onde eu vou os caras curtem. Na verdade os que curtem também usam crespos ou são descaradamente apaixonados por cabelo crespo. Além disso eu presto atenção nas opiniões que realmente me interessam e geralmente elas partem de meninos negros e crespos como eu. Óbvio que a maioria dos caras ainda preferem o estereótipo feminino, né?! Cabelo longo, liso, quase sempre acompanhados de uma pele mais clara. Felizmente entendo que hoje estou focada em mim e acho que nós todas, mulheres negras, crespas, vamos conseguir muito no dia em que não dermos tanto valor ao que os homens dizem de nós. No fim das contas, digo que amo um homem com características semelhante às minhas e estou convicta de que ele me ama como sou, ama o meu cabelo.

USAR CABELO NATURAL E BLACK POWER VIROU UMA TENDÊNCIA CADA VEZ MAIS CRESCENTE. VOCÊ ACHA QUE É APENAS UM MODISMO PASSAGEIRO OU VEIO PRA FICAR E MUDAR A CABEÇA DAS MULHERES NEGRAS EM RELAÇÃO AO SEU PRÓPRIO CABELO?Viviane Âmbár

Marianne Rocha – Eu acho que o estético também faz parte de qualquer mudança e é necessário. O estético é forma como nós nos vemos ou qual imagem queremos transparecer aos outros, então é super válido. Acho que tem uma pitada de modismo sim quando as pessoas não pensam pra quê e porquê adotar um cabelo livre dessas químicas que tentam negar nossas origens, mas não é pra quem o ver como auto-aceitação. Então essa resposta depende da maneira como veem o cabelo crespo.

Thayná Trindade – Para alguns é modismo, mas no final das contas acabam se tocando o quão é bonito se enxergar como verdadeiramente é. As pessoas acabam se identificando e buscando a sua essência. O modismo acaba sendo um caminho.

Carla Fernandes – Eu acho que veio pra ficar, pois existem muitas negras que são muito dependentes de progressivas, chapinhas e etc. E o Black Power veio para mudar a cabeça das mulheres. É uma forma de dizer que você pode ser linda sem cabelo liso.

Tainá Almeida – Não posso negar que seja algo que esteja representado na moda atual. Mas as pessoas que usam só por estar na moda não conseguem sustentar por muito tempo. O cabelo black é um posicionamento político. Quem usa está falando, mesmo sem abrir a boca, que não aceita a ditadura da beleza eurocêntrica. Fala que usar cabelo liso não é obrigação. Conheço muitas pessoas que se sentiam escravas de alisantes, mas não se sentiam bem com elas mesmas, nunca alcançando o resultado prometido de cabelos saudáveis, lisos e sedosos. Vemos exemplos disso todos os dias nos depoimentos das meninas no Meninas Black Power. A tendência é a forma como a porta é aberta. A sustentação só se dá quando a transformação acontece por dentro. É preciso conhecimento da história, do próprio corpo. Eu espero que todas que chegam por meio da tendência realmente queiram se aprofundar mais nas questões do uso do Black Power.

Viviane Âmbár – Eu acho que é um modismo para algumas pessoas mas, se tratando da mulher negra, espero que vejam nessa tendência a oportunidade de abrir discussões a respeito da realidade por traz dela. É bom que exista uma consciência de que a moda passa, mas o que você é não. Espero que movimentos como o MPB (Meninas Black Power) e o Boutique de Krioula, que são os que acompanham, abram os olhos das pessoas sobre elas mesmas. Já enxergo muitas mudanças, mas deve existir um incentivo constante. Não é só uma questão de cabelo, não é só uma questão de moda, é uma realidade diária para muitas pessoas.

Élida Aquino – Vejo que a maior parte das mulheres que buscam o cabelo natural de volta estão fazendo isso por causa do movimento estético. São atrizes, modelos, anônimas no Facebook… Todas mostrando que cabelo crespo é normal e lindo. Apesar dessa forte tendência, acredito que é possível mostrar que não há impedimentos para viver feliz com um cabelo crespo. Não há motivos para se render ao primeiro pacote de escova progressiva que aparecer. Tudo depende da força do exemplo, das ideias que compartilhamos. Estamos lutando para que o exemplo seja relevante e os motivos fiquem evidentes dentro da cabeça de todas. O plano é libertar da imposição estética. Se alcançarmos isso, já valeu.

QUAL SUA MUSA BP FAVORITA, Q TE INSPIRA?

Marianne Rocha – Angela Davis e Erykah Badu.

Thayná Trindade – Nina Simone.

Carla Fernandes – Alicia Keys, Paula Lima, Sheron Menezzes.

Tainá Almeida – Tem uma coisa com a Lauryn Hill e o posicionamento político dela. Tem a Corinne Bailey Rae, também por causa do tipo de cabelo dela que é bem parecido com o meu. Careço de espelhos famosos nacionais.

Viviane Âmbár – Eryckah Badu.

Élida Aquino – Sou uma grande admiradora da Bell Hooks. Acho que ela transmite em todas as falas esse sentimento que encontrei: é preciso ser uma mulher livre e se aceitar como tal. Vejo nos exemplos dela esse desprendimento, a luta pelo direito da individualidade, e mesmo com toda a garra de uma mulher forte ela não deixou de ser delicada, de lembrar e falar do amor e respeito.

Élida AquinoDIZ AÍ UMA DICA OU TOQUE PRA QUEM QUER ADERIR AO BP!

Marianne Rocha – Pense que quem disse que nosso cabelo é feio foi o branco racista. Nós somos lindas. A dica é nunca esquecer disso!

Thayná Trindade – Primeiro, parar com qualquer química no cabelo, depois usar bastante tranças e, por último, aquele corte maravilhoso. Por fim é só cuidar. Black Power é só amor!

Carla Fernandes – Primeiramente tem que ter certeza do que você quer fazer, depois preparar seu psicológico, pois nem todas as pessoas vão achar lindo. Muitas vão criticar e perguntar se você não tem pente em casa. Rs! E para aderir, arrume um bom cabeleireiro que faça um ótimo corte.

Tainá Almeida – Pesquisar, conhecer a história do B.P. Saber que penteamos os cabelos, sim! Que cuidamos dele mais do que antes, quando estava liso. Precisa saber que agora não tem mais nada para mascarar a saúde dele. Se você cuidar, ele fica bonito. Muita hidratação e cuidados, são o bê-a-bá. O B.P. é uma mudança interna de aceitação e identificação. Então recomendo pesquisa, pesquisa e pesquisa… ler sobre os cabelos, conversar com as pessoas… e não ter medo de ser feliz!

Viviane Âmbár – Não tenha medo nem vergonha. Não tenha medo de mudar, nem vergonha de ser o que é. Sempre vai haver pessoas para dar um apoio moral. Busque comunidades, sites, tire suas dúvidas, mas se aceite. A primeira pessoa que deve aceitar você, é você mesma. Ai fica fácil sambar na cara da sociedade. Rs!

Élida Aquino – Primeiro é bom refletir nos motivos que estão levando de encontro ao cabelo assumido, pensar se está fazendo por realmente achar que vai viver melhor assim. Depois ter coragem, praticar o desapego se precisar, sabe?! Raspar, cortar, trançar… Cuidar bem, com carinho, observar o próprio cabelo e amá-lo. Também é importante não querer o cabelo “igual” ao da atriz ou de uma outra mulher… Cada crespo é um crespo.

Depois de toda essa lição de autovalorização, consciência e beleza, dada por essas meninas fantásticas, vamos agora curtir alguns blacks que encontrei pela internet e nos inspirar ainda mais a cultivar com muito estilo e amor o nosso crespo natural. Beijos e até a próxima!

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Na agenda – Eventos imperdíveis mês de março

Ainda dá tempo de organizar a agenda. Confira esses eventos especiais no mês de março…

Eventos de março

21 – QUINTA

Discriminação racial e o papel da educação no seu combate – Onde, quando e por que? Horário: 19h até 21h. Local: SINPRO Rio, Rua Pedro Lessa -35/3º andar. Centro, Rio de Janeiro – RJ.
Para mais informações, clique aqui.

Fuzuê D’Aruanda – Roda de Danças Populares. Jongo, Coco de Umbigada, Samba de Roda, Maracatu e muito mais… Promovido pela Companhia Aruanda. Horário: 20h até 23h 45min. Local: Viaduto Negrão de Lima em Madureira, Rio de Janeiro – RJ. Para mais informações, lique para (21) 9146-8150/ 7679-4104.

22 – SEXTA

Afroempreendedorismo – Encontro de Negros(as) Empreendedores(as). Encontro de Afroempreendedores para formação de roda de negócios. Horário: 19h até 21h. Local: Av. São João, 313 /11º andar. Centro, São Paulo – SP. Para mais informações, clique aqui.

23 – SÁBADO

Oficina de amarração de turbantes com contação de historias. Promovido pela Balaco Roupas Afro-Brasileiras e dirigido pela Fabíola Oliveira da Grife Colares D’Odara. Horário: 11h 30min até 13h. Local: Rua Visconde de Pirajá, 550/407, Ipanema, Rio de Janeiro – RJ. Para mais informações, clique aqui.

Nós da Feira – Primeiro Encontro de Consumo Diferenciado. O evento reuni artesãos de diversos tipos de produtos que querem construir novas formas de convívio, de produção e de consumo. Horário: 13h até 21h. Local: Rua Visconde De Itamarati, 42 – térreo. Esquina com S. Francisco Xavier. Maracanã, Rio de Janeiro – RJ. Para mais informações, clique aqui.

Anami Yetu – 1ª Mostra de palavras Bantas. Homenagem a Rainha N’Zinga de Angola, 350 anos de sua morte. Amostra de palavras de várias línguas do ramo africano Bantu no Brasil. Horário: 13h até 18h. Local: Rua Queiroz, 142. Bento Ribeiro, Rio de Janeiro – RJ. Mais informações, tel.: (21) 8830-0667 ou anami.yetu@fcebook.com.

24 – DOMINGO

Mulheres Multiplicando a Cultura. Palestra, oficina de Breaking e show com o grupo Odisseia das Flores. Horário: a partir de 11h. Local: SESC Pompeia, Rua Clelia, 93. São Paulo – SP. Para mais informações, clique aqui.

26 – TERÇA

Oficina “Mulher Negra: corpos e identidades”. A oficina tem como objetivo discutir as identidades de gênero e raça, a partir do corpo negro, suas histórias e memórias. Horário: 14h até 18h. Local: Centro de Referência de Promoção da Igualdade. Av.: Goiás, 1496. Centro, Goiânia – GO. Para mais informações, clique aqui.

Eventos de março

AFRODESIA

Juh DePaula

Juh DePaula

Literal
Morro desde que nasci
Vivo quando alguém sorri
E quando você é alguém
Miragem
Pensei quando te vi
Nem sol havia
água faltou pra eu refletir
Nem vaga tinha
Pra costurar meu coração, nem linha
Sabor de ar
Salmodiar em sã cabeça
Não me cabe
Quero ver crescer as flores
Os filhos, dos outros
Amores
Meus pavores te encantam
Literalmente sou vasta
Somos , porque temos sido
E vir a ter é futurístico.

Juh DePaula
(http://juhdepaula.blogspot.com/)

Coisa de preta

NO BALANÇO DO TOIN-OIN-OIN

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Funkeiro carioca e seu toin-oin-oin.

Funkeiro carioca e seu toin-oin-oin.

Na década de 80 era moda entre os meninos que frequentavam bailes funk no Rio um cabelo tipo molinha, que chamavam de toin-oin-oin (ou toin-hnoin-nhoin, sei lá). E foi com esse termo onomatopeico que minhas queridas primas me apelidaram quando me viram pela primeira vez com meu cabelo encaracolado ao natural, logo após uma intensa seção de risadas, claro. Apesar do deboche, não me senti ofendida, pelo contrário, sabia que naquele momento estava fazendo uma pequena revolução trazendo para o mundo “normal” a estranheza do natural. Meus toin-oin-oins é que estavam ofendendo. Afinal, que ousadia era aquela de mostrar as raízes, de fazer aparecer o que o henê escondia tão bem.

Era a primeira vez que eu via o meu cabelo como ele é de verdade, no maior estilo “puxa estica, solta enrola”, principalmente quando eu não penteava. Confesso, dava uma certa preguiça desembaraçar todo dia. Ao acordar era certo ouvir piadinhas do meu irmão que dizia “ai, que susto!”. Que raiva! Mas eu não dava confiança.

Na escola, até que me aceitaram muito bem. As pessoas me davam “força” dizendo “é isso aí, tem que se assumir”. Eu era a única aluna negra na minha turma e as colegas brancas me diziam que eu estava linda. Na boa, até hoje não sei se era sincero.

Mas meu maior desafio mesmo foi ao entrar no salão de beleza onde minha mãe e meu tio trabalhavam como manicure e cabeleireiro. Todos me olharam sem entender por que eu tinha aquele cabelo. Por que ele não era alisado? Por que ele não estava escovado? Por que eu não cuidava dele? Por que? Se eu tinha cabeleireiros na família, por que meu cabelo não tinha balanço e era esvoaçante como um cabelo tratado deve ser?

Não demorou muito e uma colega do meu tio veio logo me oferecer uma nova e moderna técnica de alisamento que prometia deixar meu cabelo sedoso e com balanço. Eu ia ficar na moda. Bom, acabaram me convencendo quando me disseram que ficaria mais fácil de pentear, que nem precisaria passar o pente depois de acordar porque ele já estaria todo no lugar, bem bonitinho. Meus olhos brilharam e me rendi às facilidades prometidas.

VENDI MINHA ALMA AO DEMÔNIO!!!

A pasta (como era chamada) cheirava a enxofre e ardia como fogo o meu couro cabeludo. Mesmo com meus apelos a cabeleireira dizia “aguenta mais um pouquinho, o produto tem que agir pra poder funcionar”. Que loucura, meu Deus! O que as mulheres não fazem pra ficarem bonitas? Eu estava sofrendo, meus olhos cheios d’água, estava ardendo pra c@*&%$! Mas eu estava ali, aguentando firme! E o resultado de todo esse sofrimento? Meu couro cabeludo queimado, ardendo até a alma e muitos, muitos fios quebrados que saíam na minha mão quando eu penteava. Um tufo enorme de cabelo na parte de trás da minha cabeça caiu totalmente e eu tinha que disfarçar colocando o que restou por cima.

Queimadura por alisamento. Essa imagem é o que mais se assemelha com o que ficou meu couro cabeludo.

VALEU A PENA?

Meu cabelo ficou muito liso. Parecia que o “boi lambeu”. Me achei feia, sinceramente. Fora o ressecamento que nenhuma massagem com toca térmica (hoje chamamos de hidratação) dava jeito. Que trauma! E não teve jeito, tive que cortar bem curtinho e deixá-lo crescer novamente. Lógico que não repeti mais o procedimento. Não sou tão masoquista assim. Aliás, as mulheres são meio masoquistas mesmo, porque não se importam de se submeterem a seções de tortura em nome de um ideal de beleza. Loucura!

As antigas pastas alisantes (não sei se ainda existem) tinham aquele cheiro forte porque continham amônia na sua formulação e faziam um verdadeiro inferno no nosso cabelo. O produto não só abaixou o meu toin-oin-oin como também derrubou a minha chance de carregar na cabeça a minha identidade com toda a sua beleza natural e, com certeza, muito mais leve, saudável e forte.

Essa experiência foi o suficiente para eu aprender a lição? Por incrível que pareça, NÃO. Outras técnicas menos agressivas foram surgindo e eu fui experimentando até encontrar o produto que melhor atendia aos meus desejos de facilidade e embelezamento, equivocados com certeza.

Por causa do conceito de que cabelo crespo é ruim, criou-se a cultura do alisamento que impediu a mulher negra de enxergar a beleza de suas características naturais e, consequentemente, de aprender a lidar com seu próprio cabelo como ele é de verdade.

E neste caso, fazer o caminho de volta não é andar para trás e sim evoluir. Porque aceitar sua natureza e enxergar a beleza que há nela é o que há de mais sábio, moderno e revolucionário.

Acompanhe esta saga lendo os artigos anteriores:
Meu doce crespinho
No tempo do henê

Até a próxima!

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